4. REPORTAGENS fevereiro 2013

1. CAPA  O MUNDO SECRETO DO INCONSCIENTE
2. IDEIAS  AS ESCOLHAS DO FUTURO
3. ECONOMIA  COMO UM QUADRO PODE VALER MILHES
4. ZOOM  BUROCRATA
5. CULTURA  O BOOM AMISH
6. CULTURA  FALHA NOSSA

1. CAPA  O MUNDO SECRETO DO INCONSCIENTE
Ele ocupa a maior parte do crebro e controla quase tudo o que fazemos. Mas a cincia j sabe como dom-lo e usar os poderes dele para vrias coisas, de guardar senhas a fazer espionagem militar. Conhea as novas descobertas sobre o inconsciente  e veja como elas confirmam a principal teoria de Freud.
REPORTAGEM / Alexandre de Santi e Slvia Lisboa [Colaborao de Cristine Kidt, Bianca Carneiro e Ana Becker
EDIO / Bruno Garattoni 
DESIGN / Jorge Oliveira e Rafael Quick

     Quando tinha pouco mais de cinquenta anos, o mdico africano T.N. sofreu dois derrames cerebrais devastadores. Eles destruram totalmente seu crtex visual, a regio do crebro que nos permite enxergar. T.N. ficou completa e irremediavelmente cego. Mas, ainda no hospital, um grupo de cientistas ingleses decidiu recrut-lo para um estudo estranho. Colocaram um laptop na frente de T.N. e pediram a ele que identificasse qual figura aparecia na tela, que poderia ser um crculo ou um quadrado. O homem identificou corretamente 50% das figuras  o que  de se esperar num cego, pois esse ndice de acerto  o mesmo que se consegue fazendo escolhas aleatoriamente. T.N. estava apenas chutando. Mas a, num segundo teste, os pesquisadores trocaram as imagens exibidas no laptop. Agora, aparecia uma sequncia de rostos, alguns amigveis e outros hostis. T.N. deveria dizer se cada face era amiga ou inimiga. Para perplexidade geral, ele identificou corretamente dois teros dos rostos. Sorte? Os cientistas repetiram o teste, mas o ndice de acerto se mantinha. T.N. estava tendo alguma reao aos rostos. Ele dizia que no estava vendo nada  e, clinicamente, de fato era impossvel que enxergasse. Como explicar isso, ento? Um fenmeno sobrenatural? No. Ser capaz de ler expresses faciais  uma habilidade extremamente importante. Para o homem das cavernas, saber se um indivduo era amistoso ou hostil poderia significar a diferena entre a vida e a morte. E era preciso fazer isso no ato; no dava tempo de conversar e analisar racionalmente a pessoa para saber se ela era boazinha ou no. Por isso, ao longo da evoluo, uma regio cerebral se especializou em julgar rostos. Ela se chama rea fusiforme e  um pedao fininho e comprido da parte de baixo do crebro. Quando voc v uma pessoa pela primeira vez, sua rea fusiforme analisa o rosto dela. O processo dura fraes de segundo e  inconsciente, ou seja, voc no percebe que est acontecendo. Sabe aquela primeira impresso instantnea, que parece puro instinto e sempre temos ao conhecer algum?  um julgamento feito pela rea fusiforme. No crebro de T.N., esse pedao estava intacto. O crtex dele no conseguia processar as imagens enviadas pelos olhos, mas a rea fusiforme sim.  por isso que, mesmo estando cego, T.N. ainda conseguia ver rostos. Seu crebro consciente no enxergava mais nada. Mas o inconsciente dele ainda conseguia ver  e, mais do que ver, julgar os rostos das pessoas. H diversos casos como o de T.N., tantos que a cincia at criou um termo para design-los: blindsight, ou viso cega. Todos seguem o mesmo padro. Conscientemente, a pessoa est cega  mas partes do crebro dela ainda conseguem enxergar. A viso cega  apenas uma das demonstraes do poder do inconsciente, que interessa cada vez mais aos cientistas. Agora, o lado oculto da mente no  apenas um assunto de psicanalistas; ele tambm virou uma das reas mais interessantes da neurocincia moderna. Essa transformao aconteceu porque as tcnicas de mapeamento cerebral finalmente esto permitindo que os cientistas comecem a desbravar o inconsciente  um mundo inexplorado e muito maior que a conscincia. 
     Quo maior? No ano passado, a emissora inglesa BBC fez essa pergunta a sete dos maiores experts do mundo em crebro e cognio, de quatro grandes universidades (Oxford, Montreal, Columbia e Londres). Cada um deles deu seu palpite  sim, palpite, pois a cincia ainda est longe de ter um catlogo completo dos processos cerebrais. Pelas estimativas dos especialistas, a conscincia ocupa no mximo 5% do crebro. Todo o resto, 95%,  o reino do inconsciente.
     Muito do que voc faz, o tempo inteiro,  inconsciente. Falar, por exemplo. Voc simplesmente pensa no que quer dizer (as ideias), e no precisa selecionar conscientemente as palavras  elas simplesmente aparecem. Isso acontece porque o seu inconsciente trabalha nos bastidores durante o papo, vasculhando o seu vocabulrio e abastecendo o consciente para ajudar voc a se expressar. Enquanto voc escuta outra pessoa falar, acontece algo parecido. Voc no precisa analisar e decodificar conscientemente cada palavra do que ela est dizendo  porque o seu inconsciente se encarrega de transformar em ideias os sons que esto saindo da boca dela. Quando voc l um texto,  a mesma coisa: o inconsciente transforma automaticamente os smbolos grficos (as letras e palavras) da pgina em ideias, que s ento so transmitidas para a sua conscincia.  por isso que  to difcil aprender outro idioma. Quando voc comea a falar ou ler textos em outra lngua, s usa a conscincia  porque o inconsciente ainda no assumiu a tarefa (mais sobre isso daqui a pouco), e voc tem de escolher ou analisar as palavras uma por uma. Falar outro idioma  quase experimentar ser outra pessoa. Precisamos reunir os sentidos usando outra lgica, diz Luiza Surreaux, doutora em estudos da linguagem e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
     O inconsciente se encarrega de tudo o que fazemos sem esforo perceptvel, como andar na rua ou escovar os dentes. Por causa disso, ele opera em potncia mxima o tempo todo  e  uma exceo no organismo. Se voc se levantar e sair correndo, por exemplo, os seus msculos vo gastar aproximadamente 100 vezes mais energia do que se voc estivesse imvel (e corao e pulmo tambm sero mais exigidos). Mas o crebro  diferente. Quando voc faz alguma coisa mentalmente intensa, como jogar xadrez, ele gasta apenas 1% a mais de energia do que se voc estivesse olhando para o teto, sem pensar em nada. Isso acontece graas ao inconsciente  que trabalha freneticamente at quando estamos relaxados. O crebro  abastecido pelos olhos, ouvidos e outros sentidos, e o inconsciente traduz tudo em imagens e palavras, diz o psiclogo e neurocientista Ran Hassin, professor da Universidade Hebraica de Jerusalm e um dos autores do livro The New Unconscious (O novo inconsciente, ainda no lanado no Brasil). Novo inconsciente, alis,  o termo que os cientistas tm utilizado para definir essa nova abordagem  que prope uma explicao puramente neurolgica para o lado oculto da mente. Mas tambm confirma a principal ideia de Freud.

PSICANLISE X CINCIA
     Sigmund Freud no foi o descobridor do inconsciente. J durante o Iluminismo, no sculo 18, se discutia a existncia dele  entendido como um pedao da mente dotado de vontades que escapavam ao controle consciente. A contribuio especfica (e enorme) de Freud foi transformar uma noo vaga num conjunto de ideias, teorias e tcnicas: a psicanlise. Como explica o bigrafo Peter Gay em Freud  Uma Vida para Nosso Tempo (Companhia das Letras, 2012), Freud acreditava que o inconsciente era uma priso de segurana mxima na qual os traumas sofridos na infncia ficavam aprisionados, e nisso estaria a raiz das infelicidades humanas.
     A neurocincia nunca deu muita bola para a psicanlise. Mas os novos estudos sobre inconsciente trazem comprovao para um conceito central dela. Uma experincia liderada pelo psiquiatra Eric Kandel, que ganhou o prmio Nobel de Medicina de 2000 por estudos sobre neurotransmissores, mostra como o inconsciente pode funcionar como amplificador das emoes. Antes da experincia, os voluntrios preencheram questionrios que mediam seus nveis de ansiedade. Depois, enquanto seu crebro era monitorado pelos cientistas, cada voluntrio via uma srie de rostos com expresses de medo. Foram duas sesses. Na primeira, as fotos passavam bem devagar, com tempo suficiente para o voluntrio analisar os detalhes de cada uma. Na segunda, as imagens passavam to rpido que os voluntrios no conseguiam identificar nada  no tinham nem certeza de ter visto um rosto ou qualquer outra coisa. A inteno de Kandel e seus colegas era provocar emoes conscientes e inconscientes. Quando a foto ficava por um bom tempo na tela, o voluntrio tinha tempo de perceber conscientemente a expresso de medo da imagem. No outro experimento, era tudo to rpido que no era possvel ter uma reao consciente. Essas imagens rpidas estimulavam diretamente o inconsciente, e provocavam atividade muito alta no ncleo basolateral da amdala cerebral  rea ligada s sensaes de medo. J as imagens lentas, que eram interpretadas de forma consciente, no geravam nenhuma atividade nessa rea. Quanto mais ansiosa a pessoa era, maior a diferena entre a interpretao consciente e inconsciente da mesma coisa (as imagens). Para Kandel, o estudo  a comprovao neurocientfica de uma teoria central da psicanlise: a interpretao inconsciente de coisas negativas  a fonte de muitas das aflies humanas. Freud tinha razo.
     O inconsciente pode ser fonte de angstias  e tambm de algumas injustias, cujos efeitos so perceptveis desde a infncia. O queridinho do professor, provavelmente, ser o aluno com as melhores notas da classe. No porque ele seja necessariamente o melhor, mas porque os professores acreditam que seja  e acabam atuando inconscientemente a favor dele. Esse fenmeno, que se chama incentivo inconsciente, tem respaldo em diversos estudos cientficos. Um dos mais engenhosos (e mais polmicos tambm) foi conduzido na dcada de 1960 por Robert Rosenthal, hoje um octogenrio professor de psicologia da Universidade da Califrnia.
     Na experincia, os alunos de uma escola americana foram submetidos a uma prova. Rosenthal e sua equipe disseram aos 18 educadores do colgio que se tratava de um teste especial, desenvolvido na Universidade Harvard para analisar o potencial de desenvolvimento de cada criana. Mentira. Era apenas um reles teste de QI, sem nada de especial. O objetivo da lorota era aumentar as expectativas dos professores. Os alunos fizeram a prova, e a grande sacada de Rosenthal veio na hora de anunciar o resultado. Antes mesmo de calcular a pontuao de cada aluno, os pesquisadores escolheram aleatoriamente trs a seis crianas de cada srie e disseram aos professores que aqueles alunos haviam se destacado e teriam um desempenho extraordinrio nos anos seguintes. Era outra mentira.
     No final do ano escolar, a equipe de Rosenthal voltou  escola e repetiu o teste. Os alunos que haviam sido falsamente diagnosticados como gnios haviam ganho, em mdia, 3,8 pontos de QI a mais que os demais. O resultado foi ainda mais surpreendente entre alunos da primeira srie: a diferena entre os ungidos e o resto foi de assombrosos 15,4 pontos de QI a mais. Ou seja: as crianas que haviam sido apresentadas como mais inteligentes de fato se tornaram mais inteligentes  porque inconscientemente, sem querer, os professores haviam dado mais ateno e estmulo a elas. O resultado mais importante desse experimento foi mostrar como a expectativa dos professores faz toda a diferena para o desenvolvimento dos alunos, analisa Rosenthal.  impossvel ser completamente justo e imune a esse tipo de influncia, mas existe um antdoto eficaz contra as distores induzidas pelo inconsciente: saber que ele sempre est pronto para nos enganar.

APRENDER SEM SABER
     Se, por um lado,  impossvel controlar o inconsciente de maneira consciente,  possvel influenci-lo. Podemos mud-lo. Ele  to malevel quanto a conscincia, ou talvez mais, afirma o neurologista Ran Hassin. Como se faz isso? Praticando alguma coisa at que ela se torne uma segunda natureza, ou seja, vire um processo automtico. Qualquer profissional de elite, seja um pianista profissional, um jogador da seleo brasileira de futebol, um mdico-cirurgio ou uma bailarina do Theatro Municipal, depende de anos de prtica para chegar ao topo da carreira. Cerca de dez anos de prtica  ou 10 mil horas de treino, segundo uma famosa pesquisa do psiclogo Anders Ericsson, da Universidade da Flrida. Ericsson estudou violinistas de uma das melhores escolas de msica de Berlim. Eles comearam com cinco anos de idade, todos no mesmo ritmo. Mas, a partir dos oito anos, as horas de ensaio comearam a variar entre os estudantes. Quando chegaram aos 20 anos, os melhores violinistas haviam somado 10 mil horas de treino, enquanto os demais no passavam de 8 mil horas  e os piores da turma tinham apenas 4 mil horas de estudo.
     A dedicao trouxe recompensa porque, quando se pratica muito alguma coisa, ela fica gravada num tipo especial de memria: a memria no declarativa, que faz parte do inconsciente e registra aes e movimentos do corpo.  ela que permite que o violinista consiga tocar bem. Se dependesse apenas do consciente, ele no daria conta de todos os procedimentos envolvidos na tarefa (ler a partitura, equilibrar o instrumento no ombro, posicionar os dedos, mover o arco, respirar e, ainda por cima, tocar de maneira natural e relaxada). E ningum conseguiria aprender a falar fluentemente um segundo idioma. Em suma: a chave para ensinar uma nova habilidade ao prprio inconsciente  treinar, treinar e treinar.  um processo bem demorado. Mas j existe gente tentando deix-lo mais rpido.

AS SENHAS INVISVEIS
     Elas so um problema tpico do mundo moderno. Ou voc acaba esquecendo as suas, ou escolhe uma bem bobinha e usa pra tudo  at que, por causa disso, algum acaba invadindo o seu e-mail ou conta bancria. Um grupo de cientistas da Universidade Stanford tem uma soluo melhor: senhas ultrassecretas, que ficam armazenadas no inconsciente. Funciona assim. Primeiro, os cientistas pedem a voluntrios que joguem um joguinho no qual bolinhas caem, uma de cada vez, em uma das seis colunas que aparecem na tela. O objetivo  apertar o boto do teclado correspondente  posio da bolinha na tela. Se a bolinha cai do lado esquerdo, por exemplo, a pessoa aperta a letra 5 (porque ela fica bem  esquerda no teclado). A ordem das bolinhas parece aleatria, mas no . A pessoa no percebe, mas existe uma sequncia que se repete de tempos em tempos  cerca de 90 vezes ao longo de 30 minutos, a durao do jogo. Essa sequncia  definida pelo computador e  personalizada, ou seja, diferente para cada jogador. Ela  a senha. E, graas  repetio, acaba sendo gravada no inconsciente da pessoa.
     Na segunda etapa da experincia, a pessoa joga o joguinho novamente. E as bolinhas vo caindo na tela do mesmo jeito: sua ordem parece aleatria, mas uma sequncia especfica (a senha) se repete de tempos em tempos. Como as bolinhas caem bem depressa, o jogador erra muitas. Exceto as bolinhas daquela sequncia que ficou gravada no inconsciente dele. Sem perceber nem saber o motivo, a pessoa acerta todas. Est digitada a senha. Ela  reconhecida pelo computador, que libera o acesso. Alm de ser conveniente (voc nunca mais precisar se lembrar de uma senha), a tecnologia  extremamente segura. O sistema torna praticamente impossvel para um assaltante forar a vtima a revelar sua senha bancria, por exemplo. Porque a senha est no crebro da pessoa, mas no est acessvel conscientemente a ela, explica Hristo Bojinov, um dos criadores da tecnologia.
     Segundo ele, o sistema de senhas inconscientes pode chegar ao mercado dentro de trs anos, mas ainda precisa ser aperfeioado. Por enquanto, ele  invivel para uso cotidiano  porque  preciso jogar o joguinho durante 5 a 10 minutos at que a senha inconsciente seja digitada. Dez minutos  bastante. Mas  bem menos do que as 10 mil horas do exemplo anterior. Ou seja: a nova tcnica mostra que  possvel inserir informaes simples no inconsciente muito mais depressa do que se acreditava.
     O Exrcito americano j percebeu, e est tentando tirar proveito disso. A ideia  ajudar os analistas de imagens areas, funcionrios do Pentgono que olham as fotos tiradas pelos satlites espies dos EUA  e dizem quais delas contm algo relevante (como um reator nuclear ou uma base militar inimiga, por exemplo).  um trabalho cansativo e difcil, pois so milhares de fotos aparentemente iguais, com diferenas minsculas. Mas o cientista Paul Sajda, da Universidade Columbia, teve a ideia de monitorar o crebro de um analista enquanto ele olhava essas fotos. O analista vestiu uma touca de eletroencefalograma (EEG), cheia de sensores que medem a atividade eltrica em determinadas regies do crebro. A Sajda mostrou a ele uma foto relevante, ou seja, na qual se via claramente uma construo suspeita. O eletroencefalograma registrou um pico de atividade cerebral  pois aquela imagem havia despertado a curiosidade do analista. Normal.
     Mas a os pesquisadores resolveram acelerar as coisas, e comearam a exibir dez imagens por segundo. Algumas das fotos eram relevantes, outras no, mas todas passavam rpido demais para que o analista conseguisse prestar ateno em qualquer coisa. Mesmo assim, quando aparecia uma foto relevante, algo incrvel acontecia: o eletroencefalograma registrava um pico de atividade no crebro dele. O analista no conseguia perceber nada de diferente nas imagens, mas o inconsciente dele sim  e estava identificando as fotos que tinham pontos interessantes. De acordo com Sajda, o novo mtodo permite aumentar em at 300 vezes a eficincia da anlise de imagens militares. Os processos inconscientes so capazes de algum tipo de racionalidade, muito mais do que se pensa, e essa racionalidade pode levar a boas decises, escreve o neurocientista Antonio Damasio no livro E o Crebro Criou o Homem.
     
HANS, O CAVALO ESPERTO
     O inconsciente no  apenas um depsito de traumas reprimidos e habilidades incrveis. Ele tambm  especialista em fazer o contrrio: colocar tudo pra fora. O psiclogo Paul Ekman, da Universidade da California, ficou famoso por ter catalogado mais de 10 mil conjuntos de microexpresses  expresses faciais que fazemos inconscientemente enquanto conversamos, e que podem revelar nossas verdadeiras emoes. Inclusive se o seu interlocutor for um cavalo.
     Em 1904, o alemo Wilhelm von Oster ficou famoso por suas apresentaes com Hans  um cavalo que era capaz de quase tudo, menos falar. Segundo o dono, Hans fazia clculos matemticos complexos. Quando perguntavam a raiz quadrada de quatro, o bicho respondia batendo o casco duas vezes no cho. A conexo era tanta que Hans acertava o resultado mesmo quando seu mestre no fazia as perguntas em voz alta  e apenas pensava nelas. Havia quem jurasse de ps juntos que o cavalo lia a mente de Von Oster. A dupla rodou a Alemanha em apresentaes fantsticas, e deixou estudiosos debruados sobre o mistrio durante anos. Em 1907, o psiclogo Oskar Pfungst publicou um estudo que solucionava a charada. Hans s acertava os resultados quando seu entrevistador (no caso, Von Oster) j sabia a resposta certa. Pfungst descobriu um padro: Von Oster se inclinava levemente para frente quando terminava de propor uma questo. Esse era o sinal. Hans entendia e comeava a bater o casco no cho. Quando atingia o nmero certo de batidas, algum outro movimento do dono denunciava a hora de parar. Von Oster era um charlato, ento? Talvez. Mas muitas outras pessoas, que no sabiam de nada, desafiaram Hans com problemas matemticos. O cavalo acertou todos.  que elas, sem saber, tambm coordenavam com movimentos inconscientes as respostas dele. Ou seja: cavalos talvez no saibam fazer contas, mas podem ser capazes de ler o inconsciente alheio com mais preciso do que muito humano.
     Ainda no existe uma frmula que permita controlar o que dizemos de forma inconsciente. Emitimos sinais inconscientes o tempo todo  a ponto de sermos transparentes at para cavalos.  por isso que  to difcil fingir: todo mundo percebe quando achamos que uma festa est meio chata, por exemplo. Mas no v culpar o seu inconsciente por isso. Se no fosse ele, voc sequer conseguiria danar e conversar ao mesmo tempo. 

CONSCIENTE X INCONSCIENTE: Quando voc v um rosto pela primeira vez, o seu inconsciente decide, em fraes de segundo, se aquela pessoa  amiga ou inimiga.  uma habilidade vital para a sobrevivncia  e tambm permitiu que um
homem totalmente cego voltasse a enxergar.
LER X VER: Enquanto l este texto, voc v ums sequncia de smbolos: as letras. Mas  o seu inconsciente que d sentido a elas.
EXPERINCIA X INFLUNCIA: Voc  o produto das situaes que vive. Mas tambm sofre uma influncia que vem de dentro  e  to potente quanto elas.
SENTIR X PENSAR: O consciente e o inconsciente reagem de modo diferente  mesma coisa. O primeiro  racional; o segundo, carregado de emoo.
CRIA X FALA: Voc decide o que quer falar, mas no escolhe as palavras que vai usar  o seu inconsciente faz isso por voc. Ele pega as suas ideias e cria a sua fala. Quando voc est aprendendo outro idioma, isso no acontece: a conscincia tem de se virar sozinha.
ROTINA X MUDANA: Um estudo neurolgico provou que o inconsciente exagera as coisas ruins  e confront-lo pode ser a chave para superar angstias.

MEMRIA SUBLIMINAR
Como funciona o sistema que permite gravar senhas de computador no inconsciente
1- Voc joga um game em que bolinhas caem na tela  e o objetivo  apertar a letra do teclado correspondente  coluna na qual a bolinha est caindo.
2- A ordem das bolinhas parece aleatria, mas no . Voc no percebe, mas existe uma sequncia de 30 letras que se repete vrias vezes durante o jogo. Ela  a senha  e, de tanto ser repetida, fica gravada no seu inconsciente.
3- Para acessar o computador, voc joga novamente o game. Como as bolinhas caem bem rpido, voc erra muitas delas  exceto aquela sequncia de 30, que o seu inconsciente gravou, e por isso voc acerta. A mquina reconhece a senha e libera seu acesso.

PERCEPO ACELERADA
Exrcito dos EUA j sabe usar o poder do inconsciente para turbinar a viso humana.
1- O militar veste uma touca de eletroencefalograma (EEG), aparelho que mede as correntes eltricas do crebro.
2- Uma tela mostra dez imagens por segundo.  rpido demais para que a pessoa tenha qualquer reao consciente.
3- Mas quando aparece uma imagem relevante (mostrando uma base militar inimiga, por exemplo), o inconsciente percebe  e o EEG registra um pico de atividade cerebral.
4- A tcnica permite que um analista militar processe at 36 mil imagens por hora  e com trs vezes mais preciso do que se estivesse usando a conscincia.

PARA SABER MAIS
Subliminal, Leonard Mlodinow. Pantheon Books, 2012.
Em Busca da Memria, Eric Kandel. Companhia das Letras, 2009


2. IDEIAS  AS ESCOLHAS DO FUTURO
O que voc fez hoje na escola, filho? Transformei um carro normal num modelo super-econmico, papai. Esquea as provas, a feira de cincias e a tabuada. Se a maior parte das escolas de hoje ainda  igualzinha  dos nossos pais, as do futuro sero muito diferentes. E algumas delas j esto funcionando.
 REPORTAGEM / Marcos Ricardo dos Santos e Andr Gravat 
EDIO / Karin Hueck 
DESIGN / Rafael Quick 
FOTO / Arthuzzi

A ESCOLA ONDE TUDO  UM JOGO
MINDDRIVE
ONDE FICA KANSAS CITY, EUA
NMERO DE ALUNOS 50
TIPO COMUNITRIA (ONG) E GRATUITA
Um grupo de alunos est reunido na sala de aulas no meio de um debate caloroso. Mas a lio aqui no  de matemtica ou histria  eles esto tentando adaptar um carro normal em um modelo ecolgico e econmico. Essa  apenas uma das lies desta escola, chamada Minddrive, no Kansas, EUA. De fato, o maior feito dos alunos por l  ter desenvolvido um veculo eltrico capaz de rodar 128 km com a energia equivalente  de 1 litro de combustvel. Esta no  uma escola normal, claro. O Minddrive, na verdade,  um reforo escolar para adolescentes que no vo bem no ensino regular. Mas seu mtodo educativo no  to extico assim. Ele  todo baseado nos jogos epistmicos, uma espcie de RPG (role playing games), no qual os alunos simulam situaes cotidianas e pensam em solues para os problemas que vo surgindo. Os desafios que as nossas escolas enfrentam hoje so importantes demais para ficarmos isolados. Precisamos preparar os alunos para o mundo real, diz David Shaffer, professor de pedagogia da Universidade de Wisconsin e chefe do projeto de jogos epistmicos para uso na educao. A ideia bsica do Minddrive  apresentar um grande desafio real aos alunos e, sob a orientao de um instrutor, fazer com que eles encontrem as solues para este problema. O aprendizado viria naturalmente, como consequncia do processo. De fato, depois de entrar no reforo, quase todos os adolescentes melhoraram seu desempenho na escola tradicional.

A ESCOL VERDE
GREEN SCHOOL
ONDE FICA BALI, INDONSIA
NMERO DE ALUNOS CERCA DE 370
TIPO PRIVADA - CUSTO APROXIMADO DE R$ 2 MIL MENSAIS
Nessa escola, tudo  natural: as estruturas so de bambu e as salas de aula, abertas, para que o calor e o vento balineses possam entrar. Criada pelo americano John Hardy, ela se baseia na metodologia do educador britnico Alan Wagstaff, que defende uma maneira de ensinar que conecta aspectos racionais, emocionais, fsicos e espirituais. Na prtica, isso quer dizer que o conhecimento est dividido em temas, e no em matrias. Por exemplo, no ensino fundamental, crianas de sete anos aprendem padres de contagem pulando corda. Em outra aula, o objetivo  relacionar sentimento a nmeros e acontecimentos histricos. Assim, os alunos pensam em datas e cifras e as imaginam com as cores que quiserem. De acordo com o mtodo de ensino, isso humaniza o conhecimento e, consequentemente, ajuda a memorizar os fatos. O discurso pode parecer meio hippie, mas Hardy garante que funciona. At porque um dos objetivos da Green School  que seus alunos saiam de l prontos para abrir seus prprios negcios  sustentveis, de preferncia. Ainda durante o ensino mdio, eles simulam a criao de uma empresa. E muitas acabam saindo do papel. Rasa Milaknyte, que criou sua empresa no 11 ano (penltimo do ensino mdio), foi um desses casos. Meu negcio  um servio: ensino aikid para crianas de cinco a 12 anos, diz.

A ESCOLA DA COLETIVIDADE
ESCOLA MUNICIPAL DESEMBARGADOR AMORIM LIMA
ONDE FICA SO PAULO, BRASIL
NMERO DE ALUNOS 700
TIPO PBLICA E GRATUITA
Todo mundo pode participar de tudo na escola Desembargador Amorim Lima. Os pais organizam as festas, os alunos coordenam os debates, a diretora faz papel de tutora. At a pgina do Facebook da escola  atualizada por pais. H inclusive um conselho em que todos tm poder de deciso sobre rumos futuros. A conquista do espao pblico deve ser feita por todo mundo, diz a diretora Ana Elisa Siqueira. Os alunos estudam em grupos de diferentes faixas etrias, espalhados por grandes sales  no maior deles, cabem mais de 100 estudantes. Parte das paredes da escola foi literalmente arrancada: os espaos foram formados a partir da unio das antigas salas de aula, j no final da dcada de 1990. A lousa continua por l, mas sem uso: no h aulas expositivas nesses espaos  apenas as de ingls, portugus e matemtica acontecem por perto do quadro-negro, em salas menores. Se voc entra num dos sales, encontra vrios pequenos aglomerados de estudantes, alm de professores em p, correndo de um lado para o outro para atender aos diversos chamados. Cada um dos jovens anda com um caderno de roteiros de pesquisa, cujo contedo carrega os temas que podem ser estudados durante o ano, como consumismo, comunicao e memria e sangue e excreo. E adivinhe quem escolhe por onde comear e por onde terminar? O prprio aluno, que  incentivado a ser independente.

A ESCOLA DOS HYPERLINKS
POLITEIA
ONDE FICA SO PAULO, BRASIL
NMERO DE ALUNOS 18
TIPO PRIVADA: CUSTO APROXIMADO DE R$ 1,2 MIL MENSAIS
Um dos alunos desenvolveu um game interativo que acompanha a jornada de zumbis. Outro, uma pesquisa sobre Albert Einstein  durante uma apresentao, ele at explicou o que  o paradoxo dos gmeos, um experimento mental sobre a relatividade. Outra das alunas comeou uma pesquisa sobre ces e gatos abandonados, motivada pela sua paixo por animais. Todos eles so estudantes da Politeia, uma escola em So Paulo que deixa os alunos imergirem nos temas que lhes interessam. As pesquisas levam a caminhos inimaginveis. O exemplo de Joyce Dorea, a garota de 13 anos que decidiu pesquisar animais abandonados,  emblemtico: ao se debruar sobre o tema, ela descobriu que muitos animais no so apenas deixados na rua, mas so tambm deliberadamente maltratados. Ela ento pesquisou mais o assunto e se deparou com a seguinte histria: uma cadela russa chamada Laika foi lanada ao espao numa nave, com um fim trgico, pois morreu durante a experincia. A garota ficou curiosssima para entender o contexto histrico daquele fato e comeou uma pesquisa sobre a corrida espacial. Esse assunto est diretamente conectado com a Guerra Fria e termos que at ento ela no entendia muito bem, como capitalismo e comunismo. Foi nesse momento que a garota encontrou as tirinhas da Mafalda e seus pensamentos impregnados de reflexes polticas  sim, a personagem virou o tema da ltima pesquisa da jovem. O percurso de Joyce  apenas um exemplo entre outros na Politeia. Ele mostra a lgica do hyperlink: de um ponto para outro e para outro, num percurso imprevisvel, aprendendo no meio do caminho. O desenvolvimento das pesquisas  feito com a ajuda de tutores e professores. Durante as pesquisas, o professor precisa entrar no papel de aprendiz, aceitando que no sabe tudo e aprendendo junto com o estudante, conta Yvan Dourado, um dos tutores.

A ESCOLA HIGH TECH
VITTRA
ONDE FICA SUCIA
NMERO DE ALUNOS 8500, EM MAIS DE 30 UNIDADES
TIPO PBLICA E GRATUITA
Quando voc anda por uma das unidades da Vittra, v crianas com computadores por todo lado. Ao se matricular, cada aluno recebe um notebook de ltima gerao, desde os seis anos. Os aparelhos ento so usados em atividades como o projeto Future City. Nele, cada aluno cria um avatar e escolhe caractersticas e habilidades que considera importantes para si. Juntos, os personagens criam uma cidade, desenhando a infraestrutura fsica e estabelecendo relaes sociais, incluindo a criao de leis e a realizao de eleies. As atividades em grupo misturam crianas de diferentes idades e nveis de conhecimento, e os alunos as escolhem a partir de seus interesses. Em uma aula sobre o corpo humano, por exemplo, so as crianas mais velhas que ensinam as mais jovens  e podem usar o que quiser para isso: livros, animaes ou apresentaes digitais. Ensinar algum  uma tima forma de aprender, explica a professora Frida Monsn. Observamos que os alunos do o seu melhor quando sabem que o trabalho  para seus colegas e no apenas para o professor, diz.

A ESCOLA MAIS DIFCIL DO MUNDO 
JUKU E HAGWON
ONDE FICA JAPO E COREIA DO SUL
NMERO DE ALUNOS VARIVEL
TIPO PRIVADA - CUSTO APROXIMADO DE R$ 1 MIL A R$ 1,5 MIL MENSAIS (FORA O VALOR DA ESCOLA REGULAR)
Jukue hagwon so cursinhos preparatrios para crianas que viraram febre no Japo e na Coreia do Sul. No Japo, cerca de 20% dos alunos frequentam os juku j na pr-escola, para se preparar para os exames de admisso do ensino fundamental. Isso mesmo, so crianas de cinco ou seis anos fazendo cursinho. Depois que entram na 1 srie, os alunos passam a estudar em outro juku, j com a inteno de se preparar para o ensino mdio, e assim seguem at o vestibular. Resultado: boa parte das crianas passa de dez a 12 horas por dia estudando. Assim que chegam em casa, os pais querem que estudem ainda mais, explica Julian Dierkes, da universidade canadense de British Columbia, especialista nas metodologias pedaggicas da sia. Na Coreia do Sul, pas com as melhores notas nos testes escolares internacionais, a mania  ainda mais extrema. Tanto que virou caso de polcia: existem equipes especializadas em investigar os cursinhos noturnos, os hagwon. Por lei, esses espaos s podem funcionar at as 22 h, mas, para conseguir melhores resultados, alguns hagwon seguem com as aulas madrugada adentro. Em um caso recente, aps receber uma denncia annima, uma patrulha especial da polcia chegou a um beco no distrito de Gangnam, em Seul (aquele da msica do Psy). Os policiais identificaram o endereo, cercaram o prdio e encontraram uma sala de aula, onde dez alunos estudavam. O professor acabou preso e processado. Preocupado com os altos ndices de estresse dos alunos, o ministrio da educao coreano quer desestimular os hagwon. Pretende aumentar a qualidade das aulas regulares e mudar os sistemas de ingresso nas universidades, que esto passando a considerar testes de habilidades e entrevistas, alm das supercompetitivas notas.


A ESCOLA DO YOUTUBE 
KHAN ACADEMY
ONDE FICA NA INTERNET
NMERO DE ALUNOS 43 MILHES
TIPO LIVRE
Em 2004, nos EUA, um jovem americano chamado Salman Khan, filho de me indiana e pai de Bangladesh, queria ajudar sua prima, que morava na ndia, a estudar matemtica. Como estava longe, gravou umas aulas em vdeo e as publicou no Youtube, para que a prima pudesse acessar suas explicaes. Mas ele no esperava que suas aulas fossem virar hits. Khan comeou a receber pedidos para que gravasse vdeos de outros assuntos. Assim surgiu a Khan Academy, hoje uma febre mundial. A Khan disponibiliza gratuitamente na internet mais de 3200 aulas em vdeo e animao. Somados, eles j tm mais de 200 milhes de visualizaes. Algumas escolas dos EUA (e do Brasil tambm!) utilizam os vdeos da Khan na sala de aula  o que aponta para uma sutil e gradual tendncia de, aos poucos, substituir as tradicionais aulas com lousa e giz. O velho modelo simplesmente no atende mais s necessidades das pessoas, diz Salman Khan.  uma forma de aprender essencialmente passiva, mas o mundo requer uma maneira mais ativa de processar informao. E a tecnologia oferece isso.

A ESCOLA ONDE O ALUNO DECIDE O QUE FAZER
SO TOM DE NEGRELOS
(CONHECIDA COMO ESCOLA DA PONTE)
ONDE FICA VILA DAS AVES, PORTUGAL
NMERO DE ALUNOS 220
TIPO PBLICA
A escola tradicional se baseia na ideia de que o aprendizado segue um caminho mais ou menos igual para todos. Por isso, temos a diviso em turmas por idade, currculos padronizados e provas iguais para todos os alunos. Mas h quem discorde: algumas teorias da educao entendem que cada aluno  nico e deve ter autonomia para aprender. Com base nessa ideia, surgiu em Portugal, em 1976, a Escola da Ponte, que fica numa vila a 30 km do Porto. A escola no tem salas de aula, no separa o contedo em disciplinas, no demarca horrio para iniciar ou terminar uma atividade. Funciona assim: os professores apresentam aos alunos uma variedade de temas. Cada um escolhe um assunto que mais lhe interesse e diz se quer trabalhar sozinho ou em grupo. Todos dividem o espao da escola, espalhados por grupos de mesas. Se preferirem, podem fazer as atividades ao ar livre. Os alunos gerem, quase com total autonomia, os tempos e os espaos educativos. Escolhem o que querem estudar e com quem, explicou Jos Pacheco, fundador da escola, em palestra recente no Brasil. Ao final de cada dia, h uma espcie de assembleia geral, onde os alunos compartilham com os colegas o que aprenderam. Quando sentem que esto preparados para fazer uma prova, definem quando vo fazer o teste, individualizado para cada um, levando em conta a lista de conhecimentos adquiridos. Parece o paraso na Terra, mas nem todos se adaptam ao modelo. H aqueles que desistem, e acabam voltando ao sistema tradicional. Mas a metodologia da Escola da Ponte convenceu o governo portugus, que valida seu diploma como o de qualquer outra escola. 

A ESCOLA PARA GAYS
HARVEY MILK HIGH SCHOOL
ONDE FICA NOVA YORK, EUA
NMERO DE ALUNOS 110
TIPO PBLICA
A Harvey Milk School (que leva o nome do principal ativista poltico americano da causa gay, assassinado em 1978)  voltada prioritariamente para jovens homossexuais. Suas diretrizes dizem que a escola  aberta para todos os alunos, independentemente de raa, gnero, orientao sexual. Mas, na prtica, quase todos os alunos so abertamente gays ou lsbicas. A escola foi criada para que adolescentes homossexuais pudessem estudar sem a ameaa de violncia fsica ou emocional que costumavam enfrentar no ambiente escolar tradicional, explica Thomas Krever, diretor executivo da iniciativa. Para o diretor, em um ambiente em que possam se expressar livremente, os alunos tm mais condies de se dedicar aos estudos. A instituio foi alvo de crticas por ser abertamente voltada a um perfil especfico de estudantes, especialmente depois de ter sido transformada em uma escola pblica em 2002, passando a receber recursos do governo. Mas, pelos dados da escola, os resultados dos alunos da Harvey Milk em exames so superiores aos da mdia de Nova York. Ai fica difcil contestar.

PARA SABER MAIS
www.educ-acao.com


3. ECONOMIA  COMO UM QUADRO PODE VALER MILHES
A arte movimenta uma das economias mais estranhas do mundo, com bolinhas coloridas e pinturas com esterco valendo milhes de reais. Entenda as regras do mercado dos artistas.
EDIO E REPORTAGEM / Luiz Romero
DESIGN / Ricardo Davino

63 milhes de dlares.  um aviso. Estou vendendo, ameaou o leiloeiro, 64 milhes de dlares. Ainda em tempo, continuou. Os lances, que elevavam o preo do quadro em US$ 1 milho a cada trs segundos, eram sinalizados por placas levantadas no auditrio da Sothebys. A cena durou poucos minutos, tempo suficientes para que um recorde fosse quebrado: a venda de um quadro de Mark Rothko por US$ 72 milhes, ou R$ 144 milhes, representava, at aquela noite de 2007, o maior preo na carreira do pintor. E, mesmo com tanto dinheiro flutuando pelo lugar, o leiloeiro parecia entediado. Com o corpo apoiado num gabinete de madeira, o alemo Tobias Meyer recitava as cifras quase que com desdm. Aqueles milhes eram rotina.
     Como explicar o preo do quadro de Rothko? E como explicar que, no mesmo leilo, Meyer venderia uma jaqueta de couro, jogada no canto de uma galeria pelo americano Jim Hodges, por R$ 1,3 milho? Parece estranho, mas apenas  primeira vista, porque o mercado possui regras. E elas at que funcionam na hora de decifrar o aspecto quase surreal dos preos.
     Para comear,  importante encarar uma informao to incmoda quanto verdadeira: o valor tem pouca relao com a complexidade da obra. Tome como exemplo as icnicas flores de metal do americano Jeff Koons. Mesmo simples, elas chegam a custar R$ 50 milhes. Tambm  preciso entender que as cifras no remetem muito  habilidade do artista. O ingls Damien Hirst, por exemplo, delega a produo de seus famosos quadros de bolinhas a assistentes, que so instrudos sobre as cores e a ordem dos crculos. Mesmo assim, uma obra dessas j foi vendida a R$ 1,3 milho. Tampouco importa o valor dos materiais que o artista usou. Basta olhar (ou cheirar) as criaes do ingls Chris Ofili, feitas com esterco de elefante (e vendidas por mais de R$ 5 milhes). Ento, eliminados o toque do criador, a complexidade do quadro e o requinte dos materiais, quais fatores elevam o preo de uma obra? O principal critrio  o renome do artista, a marca que sua assinatura atribui ao quadro. Para entender, pense que quando compra cadernos Moleskine ou cafs Starbucks, voc no adquire apenas um bloco de papel ou um copo de bebida, mas a incluso num grupo e o reconhecimento dos integrantes deste crculo. Segundo Don Thompson, economista, colecionador e autor de O Tubaro de 12 Milhes de Dlares, o mesmo vale para os grandes consumidores do mercado de arte. Com a diferena de que eles possuem milhes para gastar. E que as marcas que eles consomem  um Koons, um Hirst ou um Ofili  ficam penduradas na parede.
Quando um artista se torna uma marca, o mercado tende a aceitar como legtima qualquer coisa que ele apresente, conta Thompson. Isso explica o fato de uma escultura de Michael Jackson custar mais de R$ 11 milhes. Ela pode at no ser das mais agradveis de ter na sala. Mas, com a etiqueta Koons, vira um objeto precioso. Este poder da marca explica muita coisa no mercado de arte. Como o fato de que utenslios de um restaurante fundado por Hirst, depois que o lugar fechou, custaram to caro em leilo. Dois copos de martni, por exemplo, saram por R$ 16 mil, enquanto seis cinzeiros foram vendidos por R$ 6 mil. Ou seja, quando viram marca, os artistas adquirem o toque de Midas, capaz de transformar qualquer coisa, de esterco de elefante a cinzeiros de restaurante, em ouro.

A CONSTRUO DO ARTISTA
     Mas, como esses nomes acabam virando uma grife? Os artistas no nascem sozinhos. Precisam do suporte de gente especializada em lanar marcas e gerenciar valores. Alm disso, contam com pessoas dispostas a valorizar seus trabalhos. Hirst, por exemplo, recebeu ajuda do ingls Charles Saatchi, o grande colecionador da nossa poca. De to reconhecido, ele consegue transferir prestgio aos produtos que consome. Um artista pode ser citado em artigos na imprensa como colecionado por Saatchi ou cobiado por Saatchi, explica Thompson, e cada uma dessas referncias provavelmente aumentar o preo de suas obras. Como aconteceu com a inglesa Jenny Saville, que pintou sustentada por Saatchi e vendeu suas criaes para ele. Uma delas, adquirida por R$ 50 mil, dois leiles e duas dcadas depois, valeria R$ 5 milhes, muito devido ao impulso que Saatchi deu  pintora.
     E como ele conseguiu valorizar tanto a artista? Saatchi tem duas tticas muito espertas. Na primeira, ele investe em novatos e compra sua produo enquanto os preos ainda esto baixos. Depois, quando a notcia de que Saatchi est comprando aquele artista se espalha, devido ao seu prestgio, os valores aumentam e ele vende as obras por um preo mais alto. A segunda estratgia consiste em emprestar os quadros para museus e galerias, que ajudam a aumentar os preos com exposies. Os museus so independentes do processo do mercado e por isso raramente tm seus juzos questionados, conta Thompson. Considera-se que o artista e a obra mostrados numa dessas instituies tenham qualidade de museu.
     Ainda existem outros jeitos de fazer um quadro custar milhes. O artista pode controlar a quantidade de obras que coloca no mercado. E, quanto menos produz, normalmente, mais caro elas custam. Alm disso, pode batizar a criao de forma a explicar seu significado, facilitando a vida de todos que encaram o mistrio. Hirst, por exemplo,  especialista nesta arte. Criou A Impossibilidade Fsica da Morte na Mente de Algum Vivo e Algum Conforto Ganho pela Aceitao das Mentiras Inerentes a Tudo. Mesmo que Impossibilidade Fsica seja um tubaro num tanque e Algum Conforto, uma vaca aos pedaos, as criaes ganham mais significado e ficam mais densas quando acompanhadas pela etiqueta na galeria.
     Depois do nascimento e do batismo, uma parte da produo ser mandada diretamente para colecionadores e instituies. E so essas transaes, distantes do martelo do leiloeiro, que lideram a lista de mais caras da histria. Entre a primeira e a quarta posio, do francs Paul Czanne ao austraco Gustav Klimt, todas foram vendas privadas. Depois, aparece o primeiro recorde de leilo: uma das quatro verses de O Grito, vendida pela Sothebys por R$ 240 milhes. O nome do comprador ningum sabe: ele deu o lance por telefone e nunca foi identificado. Essas compras a distncia so comuns. E no apenas com estrangeiros, mas com gente que est sentada no prprio auditrio, a metros de distncia do produto. Isso porque alguns compradores, para no aumentar a competio, preferem no aparecer para no dar na cara que desejam uma obra.

A DESCONSTRUO DO MERCADO
     Todos estes preos, alm de impressionantes, fazem do mercado de arte um dos mais movimentados do mundo. Para ter uma ideia, no final do ano passado, em apenas dois leiles, Sothebys e Christies arrecadaram R$ 750 milhes e R$ 820 milhes, respectivamente. Recorde nas duas casas. Junto com os lances, o segmento continua crescendo: em 2011, o movimento de pinturas e esculturas entre atelis e paredes gerou R$ 22 bilhes, ou R$ 4 bilhes a mais que no ano anterior.
     Num setor que produz tanto dinheiro, as transaes que acontecem s sombras tambm impressionam. A Interpol conta cerca de 40 mil obras roubadas, pouco mais que o nmero de objetos em exibio no Louvre, sendo que apenas cinco mil foram recuperadas nas ltimas duas dcadas. Tantas peas saqueadas geram at R$ 12 bilhes, num mercado paralelo e muito lucrativo. Alm dos roubos, a falta de regulao das transaes e os preos que no precisam ser explicados facilitam a lavagem de dinheiro e o pagamento de propinas com obras de arte.
     Um dos aspectos mais impressionante do mercado de arte  sua capacidade de crescimento, mesmo em poca de crise econmica, como agora. Uma explicao para isso  que esse setor fica alheio  economia global, porque tem entre seus jogadores uma minoria muito, muito rica. E, mesmo com o mundo em crise, eles continuam apenas um pouco menos milionrios. Fora isso, artistas aproveitam os novos compradores que surgem no mercado, vindos, principalmente, da China e da Rssia.
     Na viso de Thompson, os preos das obras no param de crescer porque um negociante nunca deve diminuir o preo de uma criao. Cada mostra deve ter preos mais altos que a anterior, explica o economista. Num mundo onde a iluso de sucesso  tudo, a diminuio do preo de um artista sinalizaria que ele foi rejeitado. Esse fenmeno implica o efeito catraca. A catraca gira em apenas uma direo, ou seja, os preos no podem voltar, mas esto livres para avanar.
     Isso ajuda a explicar os milhes das vendas, os bilhes do mercado e a cara de tdio do leiloeiro Tobias Meyer, que abriu esta reportagem. Afinal, cinco anos depois do Rothko de R$ 144 milhes, aquele recorde seria superado. Meyer comandou o leilo que vendeu outro quadro do pintor por R$ 150 milhes, em novembro do ano passado. Ele estava um pouco mais empolgado, mas ainda no parecia achar nada daquilo impressionante. Ele deve saber que, enquanto existir criatividade na cabea dos artistas, haver arte. E, enquanto houver gente com paredes vazias e dinheiro no bolso, ela ser vendida. 

MARK ROTHKO
White Center (Yellow, Pink And Lavender On Rose)
Pintada em leo sobre tela, assinada em 1950.
144 milhes de reais

JIM HODGES
No-One Ever Leaves
Feita em 1992 com correntes de prata sobre uma a jaqueta de couro.
1,3 milho de reais

JEFF KOONS
Balloon Flower (Magenta)
Criada entre 1995 e 2000, possui cpias em azul, laranja, amarelo e vermelho.
50 milhes de reais

DAMIEN HIRST
Sulfisoxazole
Pintada por assistentes e finalizada, assinada e datada pelo ingls em 2007.
1,3 milho de reais

CHRIS OFILI
Orgena
Feita com tinta leo e acrlica, glitter e esterco de elefante sobre tela, assinada e datada em 1998.
5,6 milhes de reais


JEFF KOONS
Michael Jacksn and Bubbles
Produzida em porcelana coberta por folhas de ouro por assistentes e lanada em 1988.
11,2 milhes de reais

JENNY SAVILLE
Branded
Criada e assinada no verso em 1992.
5 milhes de reais
O EFEITO SAATCHI
1993  R$ 50 mil. Comprada por Saatchi
2001  R$ 1 milho. Primeiro leilo
2011  R$ 5 milhes. Segundo leilo

DAMIEN HIRST
The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living
Tubaro-tigre mergulhado em formol.
24 milhes de reais

MARK ROTHKO
Number 1 (Royal Red and Blue)
Pintada, titulada e assinada em 1954.
150 milhes de reais

NEM NO GRITO
Nenhum dos cinco quadros mais caros da histria (nem mesmo somados) supera o preo estimado da Mona Lisa. Contando com a remota possibilidade de que ela seja colocada  venda, a criao de Leonardo da Vinci poderia custar at R$ 3 bilhes.

1- Paul Czanne. OS JOGADORES DE CARTA (1893) R$ 500 mi.
2- Jackson Pollock. NUMBER 5 (1948) R$ 280 mi.
3- Willem De Kooning. WOMAN III (1953) R$275 mi.
3- Edvard Munch. O GRITO (1895) R$ 240 mi.
4- Gustav Klimt. ADELE BLOCH-BAUER (1907) R$ 270 mi.

Fontes: Katia Mindlin, presidente da Sothebys no Brasil, e Daniel Roesler, diretor da galeria Nora Roesler. Relatrios Art Market Trends 2011 e Contemporary Art Market 2011/2012, da Art Price, e Organised Crime in Art and Antiquities, do Programa de Preveno de Crimes e Justitia Criminal da Organicao das Naes Unidas. Interpol e Policia Federal. Sothebys e Christies.

PARA SABER MAIS 
O Tubaro de 12 Milhes de Dlares Don Thompson, Be Editora, 2012


4. ZOOM  BUROCRATA
s m+f 1 Empregado pblico, especialmente o das secretarias de Estado. 2 Aquele que tem influncia nas reparties pblicas.
EDIO / Luiz Romero
DESIGN / Paula Bustamante
FOTO / Jan Banning

     A definio do dicionrio  simples, mas a burocracia  muito mais complexa. So quilmetros e quilmetros de arquivos e toneladas de papel empoeirado espalhados pelos quatro cantos do mundo. De batatas empilhadas no canto de uma sala da Colmbia, recebidas pelo policial como recompensa, at as propinas aceitas pelo agente de trnsito da corrupta e devastada Libria, cada repartio funciona de um jeito. Essa complexidade foi retratada com cuidado pelo holands Jan Banning (cujas fotos foram reunidas em exposio no Centro Cultural de Justia Federal, no Rio de Janeiro, a partir de fevereiro). Nos registros do fotgrafo, os burocratas aparecem sempre encaixotados em quadrados, integrados quase que naturalmente ao ambiente que habitam. Veja uma seleo das melhores imagens. 

1- BIHAR, NDIA - Depois da morte do marido, que trabalhava neste mesmo departamento, a indiana Sushma Prasad foi contratada no gabinete do secretrio de Estado de Bihar. Salrio R$ 220.
2- TEXAS, EUA - O texano Shane Fenton recebe o maior salrio destas pginas. Ele trabalha como xerife em Crockett, um condado do Texas com cerca de 3 mil habitantes. Salrio R$ 6,2 mil.
3- SHANDONG, CHINA - O chins Jiang Ji Yuan trabalha como diretor da Associao de Arte e Literatura de Taian, na provncia de Shandong. Acima dele, um quadro com dois heris revolucionrios da China. Mao Ts-tung, lder revolucionrio chins e Zhou Enlai, poltico chins. Salrio R$ 990.
4- SIBRIA, RSSIA - Todos os dias da semana, Lyudmila Vasilyevna Malkova e outra funcionria pblica se revezam em turnos de 12 horas no cargo de secretria do prefeito de Tomsk, na Sibria. Salrio R$ 750.
5- AUVERGNE, FRANA - Apesar de trabalhar numa sala equipada com cartazes e equipamentos que remetem  maconha, o francs Roger Vacher  policial especializado em narcticos. Como trabalha no setor de narcticos, Vacher precisa interrogar informantes e traficantes. Ele acredita que a parafernlia ajuda a deixar os entrevistados mais confortveis. Salrio R$ 5,6 mil.
6- AL-MAHWIT, IMEN - Alham Abdulwaze Nuzeli, que tinha 30 anos na poca em que a foto foi tirada, trabalha no Ministrio de Dzimos e Esmolas, na cidade de Al-Mahwit. Retrato de Ali Abdullah Saleh, presidente do Imen durante mais de uma dcada, at 2012, quando deixou o poder. Salrio R$ 130.
7- POTOSI, BOLVIA - O boliviano Victoriano Velazguez Novilta  sargento em Betanzos, mas cuida da segurana de toda a provncia de Cornelio Saavedra. Quadros de Simn Bolvas, lder revolucionrio venezuelano e Jos de San Martn, lder revolucionrio argentino. Em um canto da sala um saco plstico onde guarda uma arma usada num assassinato na cidade de Vila Vila. Em outro canto da sala, depois de ajudar uma vtima de roubo, Novilia recebeu batatas de presente. Salrio R$ 230.
8- MONROVIA, LIBRIA - Na Sala de Reconstruo, trabalha Adolph Dalaney. O setor faz parte do Departamento de Trnsito de Monrovia, a capital da Libria. Em um quadro negro, Dalaney reconstri acidentes de trnsito, ao lado de mensagens bblicas. E eventualmente recebe propina para ficar do lado da vtima da batida. Salrio R$ 40.


5. CULTURA  O BOOM AMISH
Famoso pela averso  tecnologia e por viver como se ainda estivesse no sculo 18, o povo amish nunca foi to numeroso. E boa parte da responsabilidade dessa exploso demogrfica  da prpria tecnologia que eles buscam evitar.
REPORTAGEM / Ana Prado
EDIO / Felipe van Deursen
DESIGN / Ricardo Davino
ILUSTRAO / Rafael Coutinho

     No foi possvel chamar a polcia depois que o atirador matou cinco crianas e se matou. No havia telefone no local, pois tratava-se de uma escola amish, e a restrio ao telefone  um preceito da religio. O episdio, ocorrido na Pensilvnia em 2006, ps em evidncia a relao que esse povo que vive nos Estados Unidos e no Canad tem com a tecnologia. Com um estilo de vida simples e procurando se diferenciar o mximo possvel do resto do mundo, os amish evitaram o telefone por muito tempo por razes prticas e simblicas. Para eles, o aparelho  o contato direto com o lado de fora da comunidade e ainda pode roubar o tempo que seria dedicado  famlia. Viver em uma sociedade separada  uma das bases da crena amish, segundo o seu entendimento do texto bblico que diz: no vivam como vivem as pessoas deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma completa mudana da mente de vocs (Romanos 12:2).
     Mas isso est mudando. O telefone  um smbolo de como os amish tm sido afetados pelo seu prprio crescimento populacional, explica Joseph Donnermeyer, socilogo da Universidade Estadual de Ohio que estuda os amish. De acordo com um estudo realizado em 2012 pela sua equipe, a populao amish nunca foi to grande: mais de 250 mil pessoas.  mais que o dobro do registrado em 1989, e a tendncia  que o nmero continue se duplicando a cada 20 anos. Como esse aumento tem levado muitas famlias a morar em locais distantes, seus lderes abriram algumas excees e comearam a permitir outros meios de comunicao para mant-las unidas. O telefone, antes proibido, permitiu que muitos amish pudessem continuar tendo o que lhes  essencial: o convvio em comunidade.

CARROAS
     Os amish comearam sua histria em 1525, na Sua, quando romperam com catlicos e protestantes. Por serem contra o batismo de crianas, acreditando que a adoo de uma religio precisa ser uma escolha pessoal e consciente, ficaram conhecidos como anabatistas (palavra de origem grega para rebatizados). Como era de se esperar, foram perseguidos na Europa e tiveram de fugir para a Amrica do Norte. A primeira famlia chegou em 1737 e se estabeleceu na Pensilvnia. Em 1865, houve o primeiro cisma tecnolgico amish. Isso ocorreu basicamente por causa de diferenas no estilo de vida. Os progressistas permitiam, por exemplo, tirar fotografias, tocar instrumentos musicais e usar roupas mais caras, explica Donnermeyer.
     As crenas amish se baseiam na Ordnung (ordem, em alemo), tradio oral baseada em passagens bblicas especficas que contm as regras de seu estilo de vida. Mas h muitas Ordnung distintas, graas a uma srie de divises que ocorreram entre eles ao longo do sculo 20. Por isso, os grupos podem diferir em relao ao estilo de vida. Eles esto continuamente mudando. H cerca de 40 linhas distintas na Amrica do Norte e cada uma usa diferentes tipos de tecnologia, diz Donald B. Kraybill, do centro de estudos anabatistas da Elizabethtown College, na Pensilvnia. Os Swartzentruber, por exemplo, so os mais radicais. Seus cultos religiosos so mais longos (podendo durar mais de quatro horas) e sua restrio  tecnologia, muito maior. Eles no podem usar gua encanada ou aquecida  o que faz com que tomem banho com menos frequncia que os outros grupos  e no usam qualquer forma de energia. Carros: proibidos. E as carroas, veculo smbolo dos amish, no tm retrovisores porque eles acreditam que no devem ter sua imagem registrada ou refletida em nenhum lugar. J grupos da chamada Nova Ordem permitem eletricidade em torno de sua casa (mas no dentro dela) e at tm aparelhos telefnicos, alm de permitir fotografias. Alguns aspectos, porm, so comuns a todos, como as roupas em cores nicas, as famlias numerosas e o idioma adotado  um dialeto da Alemanha. Fora os assentamentos, que tm sempre 20 ou 30 famlias.

MULTIPLICAO HUMANA
     Em 1990, havia 179 comunidades amish no mundo. Em 2012, j eram 456  cada uma com, em mdia, 20 a 35 famlias e uma hierarquia mnima de lderes eclesisticos, composta de um bispo, um dicono e dois ministros. Diferentemente de outras religies, que crescem graas  converso de novos membros, os amish no so adeptos da pregao. Poucas pessoas de fora se juntam a eles. A menos que sejam solicitados, eles no costumam expressar sua f em palavras para pessoas que nunca viram antes, escreveram os pesquisadores Donald Kraybill, Steven Nolt e David Weaver-Zercher no livro The Amish Way (O caminho amish, sem verso no Brasil).
     Muito desse crescimento, segundo Donnermeyer, vem da alta taxa de converso familiar. Cerca de 90% dos filhos de famlias amish optam por seguir a religio dos pais e costumam se batizar logo aos 18 anos. Antes disso, eles podem experimentar a vida dos ingleses (como so chamados os no-amish) em um perodo chamado Rumspringa, quando  permitido beber, fumar ou at instalar sistemas de som com alto-falantes em seu buggy, tipo de carroa amish.  engraado ouvir a msica de um buggy cheio de adolescentes amish andando a 20 por hora, diz Erik Wesner, autor de livros sobre essa cultura e criador do site Amish America. Durante o Rumspringa, os pais no os proibem de fazer coisas que normalmente proibiriam.  um perodo de ansiedade, de medo de que seus filhos se desviem. Logo aps o batismo, eles casam e comeam suas prprias famlias, quase sempre com mais de seis filhos  as crianas so vistas como uma bno e famlias numerosas so altamente valorizadas. Os amish levam a ordem crescei e multiplicai-vos a srio e rejeitam todas as formas de controle de natalidade.
     Como preferem assentamentos com apenas algumas dezenas de famlias e a terra nem sempre  suficiente para todos, j que tudo que comem  produzido por eles prprios, o crescimento da populao faz com que seja necessria a busca de novos lugares para se instalar. Hoje, j existem comunidades amish em cerca de 30 Estados americanos. At em Nova York. L, so 47 assentamentos, 18 dos quais fundados depois de 2009. Curiosamente,  a tecnologia que tem facilitado essa expanso. A grande responsvel  a mecanizao agrcola. Segundo Donnermeyer, a industrializao do campo est tomando o lugar de pequenos fazendeiros, sejam produtores de leite em Wisconsin ou fabricantes de tabaco em Kentucky. Isso faz com que eles vendam suas propriedades, muitas vezes a preos baixos. Assim, os amish adquirem novas propriedades e tm mais espao para crescer. Wisconsin tinha 17 assentamentos at 1990  agora, tem mais de 45. Em Kentucky, o nmero dobrou. E essa expanso deve continuar: estima-se que um novo assentamento se forme a cada trs semanas e meia no pas.
O pequeno agricultor americano est desaparecendo. Os amish geralmente so bons para a economia de uma regio, pois acabam, muitas vezes, assumindo fazendas antigas que no esto mais em uso e revivendo algumas dessas reas com outras atividades econmicas, diz Wesner. Eles gostam do isolamento rural porque viver prximo a reas urbanas intensificaria a interao com pessoas de fora da comunidade. Mas os amish no esto s no campo.  cada vez maior o nmero deles se estabelecendo em serrarias, lojas de mveis, tipografias e agncias de turismo. Na verdade, s cerca de 40% dos domiclios amish recebem sua renda primria da agricultura, diz Kraybill.
     Isso gerou novas necessidades comerciais que tambm tornam inevitvel a absoro seletiva de certas tecnologias. A soluo encontrada para usar o telefone, por exemplo, foi permitir a sua instalao em cabines pblicas ou dentro de escritrios e estabelecimentos comerciais. Ter um aparelho telefnico fora de casa ajuda a manter a separao com o mundo de fora e desencoraja ligaes desnecessrias. Calculadoras e lanternas impulsionadas por baterias ou energia solar tambm so permitidas. Usar a energia da rede eltrica pblica, porm,  proibido. Eles acreditam que ter muita confiana no poder pblico  uma armadilha que pode deix-los muito perto ao mundo. Basicamente, o que define se uma tecnologia pode ou no ser usada por um amish  a influncia que ela tem em seus valores, em seu lar. Assim, preferem no ter energia eltrica para evitar televiso, rdio, computador e outros dispositivos que poderiam levar ideias de fora para dentro da comunidade, contrariando o conselho bblico.
     Algo semelhante ocorre com os meios de transporte. Os amish at podem aceitar uma carona para trabalhar ou fazer compras na cidade, bem como tomar nibus, trem ou avio para visitar parentes distantes. Ter um carro, porm,  outra histria: isso daria uma sensao muito grande de liberdade e poderia incentiv-los a passear longe de casa.

OS INGLESES
     O contato de Erik Wesner com os amish comeou de forma acidental. Em 2004, quando trabalhava para uma empresa vendendo livros de casa em casa no Estado de Illinois, ele se deparou com uma de suas comunidades. Como no havia qualquer tipo de fronteira fsica ou barreira que o impedisse de entrar, decidiu visitar algumas casas, s por diverso. Acabou se surpreendendo com a boa receptividade que teve, especialmente em relao aos livros infantis bblicos que trazia. H um esteretipo de que eles so desconfiados. Certamente algumas comunidades so menos abertas, mas muitos deles tm amigos de fora e podem convid-los para refeies em suas casas, explica. O amish  capaz de ver o mundo exterior e interagir com ele, mas prefere mant-lo a distncia. Um amigo amish que s vezes viaja para Nova York a trabalho certa vez me disse que gosta de visitar a cidade, mas apenas por um dia. Esse exemplo mostra que eles so curiosos sobre o mundo exterior, mas esto mais confortveis em suas comunidades. Donnermeyer acredita que, embora possam se abrir para certas tecnologias, suas crenas fundamentais e organizao social devem permanecer inalteradas. Wesner completa: Algumas tecnologias so to poderosas que provavelmente nunca sero aceitas nessas comunidades. Outras sero assimiladas. H 150 anos  assim. O povo famoso por viver como no sculo retrasado tem tambm seu prprio dinamismo.

OS AMISH E O MUNDO - Eles no sabem nada sobre o mundo exterior? Mito. Erik Wesner, do site Amish America, garante: Conversamos sobre a maioria dos assuntos sobre os quais eu falo com as outras pessoas. Hoje mesmo li uma mensagem de um amigo amish que fez referncia a um grupo de msica dos anos 80. Eles tambm leem jornais  muitas vezes publicaes amish, mas vrias casas tambm assinam o jornal local e tm uma ideia do que est acontecendo do lado de fora das comunidades.

OS AMISH E O CAPITALISMO
Existem amish ricos e pobres. H os milionrios e aqueles que mal tm o que comer, afirma Wesner. Mas as casas e roupas seguem o mesmo padro de simplicidade.  possvel perceber nos detalhes: algumas casas tm mais bens materiais e melhores brinquedos para as crianas; algumas pessoas tm cavalos melhores. A grande diferena  que, embora seja capitalista em seus negcios, a comunidade amish se ajuda. Os mais ricos (geralmente, proprietrios de negcios envolvendo a construo de mveis e casas) contribuem com quantias maiores quando h pessoas em necessidade.

PARA SABER MAIS
www.amishamerica.com
The Amish Way: Patient Faith in a Perilous World, de Donald Kraybill, Steven Nolt e David Weaver-Zercher. John Wiley & Sons, 2010.


6. CULTURA  FALHA NOSSA
Eles capricham no visual e na ao  mas s vezes se esquecem de checar as informaes. Veja aqui alguns dos maiores erros cientficos e histricos que os filmes exibiram nos ltimos anos.
REPORTAGEM / Nathan Fernandes
EDIO / Karin Hueck
DESIGN / Rafael Quick
ILUSTRAO / Pedro Piccinini

MELANCOLIA (2011)
ASTRONOMIA DA DEPRESSO
No filme, um planeta chamado Melancolia entra em rota de coliso com a Terra e destri tudo o que chamamos de lar.  uma boa premissa, se no mostrasse as pessoas vivendo normalmente at a chegada do corpo celeste. S a aproximao de uma massa to grande j nos traria grandes problemas por causa da atrao gravitacional, diz Cludio Furukawa, do Instituto de Fsica da USP. Segundo ele, o primeiro sinal que sentiramos seria o aumento da fora das mars. Se a aproximao fosse na linha do Equador, a mar se movimentaria nessa direo e os pases prximos seriam inundados, enquanto os plos ficariam sem gua. Mas, se a aproximao fosse em um dos plos, o resto dos oceanos ficaria seco, explica. Tambm morreramos por falta de ar antes do impacto, porque a atmosfera seria atrada pelo mesmo motivo (embora com muito menos intensidade, j que a densidade do ar  quase mil vezes menor que a da gua). Outra coisa: um planeta vindo fazer uma visita seria visto com dcadas de antecedncia. Mesmo estando escondido atrs do Sol, como afirma o filme, por causa do movimento de translao.

O DISCURSO DO REI (2010) 
GAGO E NAZISTA?
A histria gira em torno da ascenso do rei George VI e de sua dificuldade em fazer discursos sem gaguejar. No final do filme, o rei consegue no s completar um discurso do comeo ao fim, como tambm inspirar os milhares de britnicos que o ouvem do lado de fora do Palcio de Buckingham a apoiar a entrada da Inglaterra na Segunda Guerra Mundial. George VI de fato era gago e conduziu a Inglaterra contra a Alemanha de Hitler, mas o que o filme no mostra  que o monarca bem que flertava com o antissemitismo. Documentos liberados pela Casa de Windsor, em 2002, tratam da deciso do rei de barrar a entrada de judeus fujes na Palestina, na poca sob seu controle. Ele chegou a enviar cartas ao ministro das relaes exteriores, Lord Halifax, congratulando pelo banimento.

MARIA ANTONIETA (2006) 
QUESTO DE ENCAIXE
O filme mostra o rei Luis XVI afeminado e pouco interessado em cumprir suas obrigaes como marido na cama. Mas alguns pesquisadores mostram que a incompatibilidade sexual do casal no acontecia porque os dois gostassem de homens. Na biografia Marie-Antoinette, Iinsoumise (Maria Antonieta, a rebelde, sem traduo no Brasil), a historiadora Simone Bertire revela que o rei possua um pnis extremamente grosso enquanto a rainha era dotada de uma vagina incomumente estreita. As peas simplesmente no encaixavam. Segundo Bertire, fazer sexo era um ato doloroso para ambos. Como a consumao do casamento era importante para uma aliana militar entre Frana e ustria, muitos boatos surgiram. A relao s foi consumada depois de mais de dois anos.

OS VINGADORES (2012) 
EXPLOSO DE EXPLOSES
Aqui o erro no  apenas de um filme, mas de toda uma coleo de filmes de ao que mostram carros explodindo em labaredas gigantescas. Na vida real,  muito difcil um carro entrar em combusto  tanques de gasolina no tm o hbito de se auto-destruir. Para que haja uma exploso,  preciso que uma srie de condies estejam alinhadas. No livro Insultingly Stupid Movie Physics (algo como A fsica estpida dos filmes, sem traduo no Brasil), o fsico Tom Rogers explica que um carro destrudo s explode se uma chama conseguir entrar diretamente no tanque de gasolina  o que  bem difcil porque a vedao  reforada. Outra maneira, um pouco mais provvel, seria se uma grande chama em contato com a parte externa do tanque evaporasse a gasolina que h l dentro e criasse uma presso enorme. Mas mesmo assim, bastaria uma pequena brecha para o vapor escapar e o carro no explodir. A maioria dos incndios comea no motor e no se espalha para a rea do tanque. Logo, quando uma pessoa sofre um acidente,  mais fcil que ela tenha uma leso na coluna ao tentarem retir-la do carro s pressas do que ela morrer em uma exploso. Fica a dica, Vingadores.

GLADIADOR (2000) 
PARLA!
No d para entender por que, no ano de 180 d.C., algum gritaria Mamma! I soldati! em italiano perfeito em um filme falado em ingls em uma poca que a lngua usada era o latim. Pois foi o que o filho do gladiador Maximus fez ao ver os soldados se aproximarem de sua casa. Outra escorregada acontece quando falam de cristianismo. Em uma conversa, o gladiador descobre que a irm do imperador Commodus reza pela sua famlia. Em seguida, Maximus tambm reza pela sua e deixa escapar um Pai Celestial. O cristianismo j estava  espreita naquele tempo, mas no passava de uma religio subversiva que ameaava a mitologia romana dos deuses e deusas.

10.000 A.C (2008) 
SAMBA DO MAMUTE LOUCO
Apesar de parecer, este filme no tem nada de histrico. A comear pelos mamutes ajudando humanos a construrem pirmides. Ok, homens chegaram a caar mamutes no perodo Paleoltico, como  possvel ver em pinturas rupestres. Mas adestr-los e faz-los trabalhar? Mamutes no foram domesticados, portanto no podem ter sido usados como mo de obra na construo das pirmides, alerta Marcelo Rede, professor de histria antiga da USP. At porque sequer existiam pirmides naquela poca. As grandes pirmides, como as famosas Keops, Kefren e Mikerinos, datam de 2600 a 2450 a.C.., explica o historiador. Ou seja, conseguiram errar at no nome do filme.

PLANETA DOS MACACOS (1968, 2011)
EVOLUAO A JATO
Para explicar os erros desse filme, vamos ter de caprichar nos spoilers. O filme original traz um erro que a verso de 2011 tenta consertar. Na verso de 1968, uma expedio espacial passa 18 meses longe da Terra at finalmente cair em um planeta dominado por macacos superdesenvolvidos. No final, descobre-se que o tal planeta era a Terra, 2 mil anos no futuro. Assim, o enredo ficava sem p nem cabea: 2 mil anos no  tempo evolutivo suficiente para macacos se tornarem inteligentes.  s comparar com a nossa espcie: o Homo sapiens surgiu h 200 mil anos, mas os primeiros registros de arte ou religio datam de 50 mil anos atrs. E outros milhares se passaram antes de inventarmos a escrita, as cidades e a tecnologia avanada. Por isso, Planeta dos Macacos: A Origem, de 2011, explica que o salto de inteligncia no aconteceu sozinho  os macacos teriam sido expostos a um gs que os tornou mutantes. Muuuito melhor.

JURASSIC PARK (1993)
DNA COM DATA DE VALIDADE
Tudo bem um dinossauro usar a maaneta para abrir uma porta ou derrubar a parede de um banheiro com um salto. Isso  coisa de filme. O difcil  existir um dinossauro nas condies propostas em Jurassic Park. No longa, os animais so recriados a partir de sangue de dinossauro encontrado em mosquitos preservados no mbar. At a, Ok: alguns mosquitos de 230 milhes de anos realmente foram encontrados no mbar, como mostra um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences. Por isso, desde a dcada de 1990, havia um boato de que seria possvel recriar dinos dessa forma. O bilogo Michael Bunce, da Universidade de Murdoch, na Austrlia, resolveu testar essa possibilidade. Ele estudou o sangue de aves gigantes j extintas e constatou que DNA no  eterno. No caso, as molculas de DNA no durariam mais de 6,8 milhes de anos, mesmo conservadas em mbar. O DNA se deteriora com o passar do tempo, muito antes de ser possvel recriar um dinossauro hoje em dia, diz Bruce Whitelaw, professor de biotecnologia do Instituto Roslin, no Reino Unido. Alis, o prprio nome do Jurassic Park est todo errado. A era Mesozoica, a que viu o surgimento e o desaparecimento dos dinossauros,  dividida em trs grandes perodos de tempo: o Trissico, o Jurssico e o Cretceo. De fato, os dinos apareceram no perodo Jurssico, mas as espcies que fazem as vezes de atores principais no filme, como o Tiranossauro, o Velociraptor e o Triceratops, surgiram apenas no Cretceo. Cretaceous Park talvez no tivesse sido to sonoro. Mas seria mais correto.

ALIEN - A RESSURREIO (1997)
DNA DESMEMORIADO
Imagine morrer e ressuscitar em um corpo igualzinho ao seu, carregando toda a memria da vida que passou. Foi o que aconteceu em Alien  A Ressurreio. (Pare de ler se no quiser spoilers.) No final do terceiro filme da franquia, a tenente Ripley se lanou ao fogo quando descobriu que era hospedeira da raa aliengena. J no quarto filme, ela acorda 200 anos depois, clonada e com a mesma memria. O problema  que o DNA no guarda lembranas. A ovelha Dolly no se lembrava dos pastos por onde andou Belinda, sua matriz. Um clone  apenas uma cpia do material gentico. O ambiente e as experincias de vida  que formam a memria , diz Bruce Whitelaw, do Instituto Roslin, responsvel pela clonagem de Dolly. Logo, se dependesse da cincia, Alien jamais teria uma quarta sequncia.

WATERWORLD - O SEGREDO DAS GUAS (1995)
O SERTO NO  MAR
No futuro, as calotas polares derreteram e cobriram a Terra de gua. Aqueles que sobreviveram tiveram que se adaptar ao novo mundo.  o que afirma a cena de abertura de Waterworld. Segundo o filme, o culpado por esse apocalipse molhado foi o aquecimento global. Mas isso no passa de fico. Este cenrio  completamente irrealista nos prximos 500 anos, tranquiliza o especialista em meio ambiente Paulo Artaxo, do Instituto de Fsica da USP. Ele garante que, se uma catstrofe como essa acontecesse, seria muito difcil a gua inundar lugares com mais de 200 metros de altitude. So Paulo, Belo Horizonte e Braslia estariam a salvo. E boa parte do resto do planeta tambm: a mdia de altitude da terra firme  de 840 metros. Poderamos ter o passado como base, quando o gelo da Groenlndia e do oeste da Antrtida derreteu completamente, h 400 mil anos. Segundo um estudo publicado na revista Nature, a elevao do nvel do mar naquela poca ficou entre 6 e 13 metros. Ou seja, seria uma catstrofe, mas no o suficiente para botar o mundo embaixo da gua e criar mutantes com guelras.

GUERRA NAS ESTRELAS (1977)
O SOM DO SILNCIO
Apesar da aura cult que ganhou, Guerra nas Estrelas conseguiu cair em quase todos os erros de filmes de espao. O primeiro  o barulho de exploses e naves. Apesar de haver ondas de choque que se propagam no espao aps uma detonao, ns no conseguiramos ouvir nada, garante o fsico Cludio Furukawa, do Instituto de Fsica da USP. Como ele explica, depois de uma exploso, plasma e ondas eletromagnticas geradas at se propagariam no espao, mas elas no emitiram sons, j que o barulho precisa de matria para se espalhar. E o espao,  claro,  formado quase todo de vcuo. Alis, esse  o motivo pelo qual sequer haveria exploses por l. Sem oxignio, no h fogo  e assim no teria como a Estrela da Morte, por exemplo, entrar em combusto. S haveria a chance de alguma coisa explodir se os detonadores fossem nucleares. Uma bomba nuclear no precisa de oxignio, explica o fsico. A detonao seria um claro como um flash e haveria grande emisso de partculas radioativas. Mas no haveria nem fogo, nem barulho algum. O terceiro erro est nos to amados sabres de luz. De acordo com a cincia, essas armas so impossveis de existir. Seria difcil fazer a luz se comportar como um sabre, a no ser que houvesse um espelho na extremidade oposta ao emissor para refleti-la de volta, diz Furukawa. Sem nada para rebater, a luz se propagaria ao infinito e alm, acabando assim com a graa daquelas lutinhas coreografadas. 


